segunda-feira, 2 de março de 2015

Efeito das mídias eletrônicas nas crianças


A Laura tem uma agenda cheia. Ela vai à escola. Faz robótica, artes, piano, natação. Mas tem tempo livre o suficiente para brincar todas as tardes com as crianças do prédio em que moramos ou nos playgrounds próximos.  Tempo para desenhar. Ler. Brincar com seus brinquedos. Brincar comigo e o Douglas, com a babá... E no meio de tantas atividades, sim: a Laura brinca com o seu iPod ou iPad e/ou assiste TV, e, mais raramente, brinca no computador.

Desde bebê,  dispositivos como o iPod fazem parte da sua rotina. E já fazia da nossa, antes de a Laura nascer. Eu e o Douglas temos formação em Ciência da Computação, somos profissionais de Tecnologia da Informação (TI). Douglas é particularmente apaixonado por ciência, tecnologia e futurismo. Não seria diferente. Tecnologia para nós sempre foi ferramenta de trabalho, educação e lazer.

Depois que a Laura nasceu não demorou muito para que víssemos a tecnologia como aliada em nossa rotina. A Laura era um bebê bastante exigente: dormia pouco durante o dia, acordava muito à noite. Ficava pendurada no peito. Requeria bastante interação, só queria meu colo e chorava facilmente nas situações mais corriqueiras, como trocar de fralda ou tomar banho. Além de querer o colo ela queria movimento. Então, na maior parte do tempo eu ficava de pé, de preferência andando ou dançando... Carrinho? Só funcionava se estivesse em movimento também. Não fosse o Douglas e a babá para revezar...

Mas nem o revezamento e nem todo o amor do mundo nos protegia de chegar ao fim do dia exaustos. Quem acompanha este blog sabe que a chave para lidar com a Laura foi tudo que aprendemos na literatura sobre sua personalidade, formas de lidar com suas características particulares, desenvolvimento e educação infantil.

Mas lançávamos mão de tudo que parecia ajudar... e as mídias eletrônicas entraram aí.  Começamos a usar a TV, pelo poder de capturar a atenção da Laura. Basicamente, isso garantia alguns minutos sentada com ela. Não me lembro quantos meses depois de nascida foi o primeiro contato. Mas lembro que neste início ela gostava de assistir o tema de abertura dos Backyardigans (o Douglas chegou a gravar um DVD que repetia a abertura por alguns minutos), Bebê Mais e Baby Einstein. Um dia, a Laura devia ter uns 5 meses, testamos usar o iPod com um vídeo infantil durante a rotina após o banho da noite. E a distração realmente ajudou a levar esta rotina adiante com mais tranquilidade.

1 ano e 3 meses: "meu" iPod?

Consequência natural, gradativamente o iPod passou a ser opção para educação e lazer da Laura também. Qualquer que fosse o dispositivo, sempre tivemos muito cuidado com o conteúdo, escolhendo a dedo programas e apps que usávamos. Mesmo depois que ela já tinha condições de ficar sozinha, vendo TV, por exemplo, nunca a deixamos. Até hoje,  é algo que evitamos. Até pela questão do bilinguismo, tínhamos a noção de que exposição passiva a um conteúdo raramente traz benefícios (aprendizado, por exemplo), então estávamos sempre juntos e interagindo.

Paralelamente, comecei a me preocupar se esta exposição precoce poderia ser prejudicial. Esbarrei em algumas recomendações bastante radicais, como a da American Academy of Pediatrics - AAP - (Academia Americana de Pediatria), que recomenda que crianças menores que 2 anos não sejam expostas a nenhum tipo de mídia eletrônica, seja por meio de TV, computadores, dispositivos móveis, etc.

Bem. Antes de completar 1 ano, a Laura puxou o iPod das mãos do Douglas pela primeira vez. Antes de completar 2 anos, ela já sabia ligar, desbloquear e escolher o que queria fazer no seu iPod... Sempre achamos que exposição à mídia eletrônica, como tudo na vida, é uma questão de uso saudável, equilibrado.

Com tudo que tínhamos aprendido (e continuamos aprendendo) sobre desenvolvimento e educação infantil, sempre foi claro para nós o quê é mais importante para um desenvolvimento motor, cognitivo, emocional e social saudável: dar à criança atenção e interação adequada, estarmos presentes, darmos suporte emocional, amor. A recomendação da AAP me pareceu excessiva. Desde quando aquele nível de exposição à mídia eletrônica estaria privando a Laura de tudo isso?! Pra mim era óbvio que não estava. Mas a pulguinha ficou atrás da orelha. Será que poderia trazer algum prejuízo para o desenvolvimento do cérebro?

Não demorou muito para esbarrar em outras recomendações para limitar (ok, claro!) e mesmo banir (o quê?!) dispositivos da vida das crianças pequenas.  Artigos como este sugerem que o acesso a mídia eletrônica deve ser proibido até os 12 anos! A última recomendação, li em um post da minha adorada psicóloga Dra. Laura Markham, autora do livro "Peaceful Parenting, Happy Kids." Ela baniu TV (e outros dispositivos) de sua casa, até que seus filhos, por volta dos 10 anos, começaram a querer saber sobre os programas que os amigos assistiam.  Ela é terminantemente contra uso de mídias eletrônicas como hábito diário, pois, segundo as pesquisas em que ela se baseia, dentre as muitas desvantagens, estas mídias viciam.

Sou muito sensível a recomendações de especialistas a quem respeito. Mas isso, novamente, pareceu-me uma atitude extrema. Vemos tecnologia como parte natural da nossa vida e percebemos, no nosso dia-a-dia com a Laura, o poder que ela tem de apoiar o aprendizado e o amor pelo aprendizado.

Todos sabemos que a tecnologia está cada vez mais presente, em ritmo acelerado. E estamos só começando.  A solução é esconder as crianças embaixo da cama, colocá-las em uma bolha de vidro? Ou seria melhor prepará-las para lidar com um mundo sempre em evolução?  Prepará-las para ter uma relação saudável com as mídias eletrônicas? A raça humana estaria condenada a déficit no desenvolvimento, obesidade e desordens mentais por conta da tecnologia? Sim. É o que algumas pesquisas sugerem. Algumas chegam a sugerir correlação com déficit de atenção e hiperatividade (o famoso Transtorno de Déficit de Atenção/Hiperatividade - TDAH) e até autismo.

Alerta: correlação não é relação de causa e efeito! Significa, por exemplo, que se pode ter notado um aumento do diagnóstico de TDAH (ou qualquer outra doença)  no mesmo período em que aumentou o acesso das crianças a mídias eletrônicas. Mas coincidência temporal não significa que uma coisa causou a outra. O aumento no diagnóstico de casos de TDAH pode ter ocorrido simplesmente pelo fato de a ciência ter avançado e os profissionais de saúde terem se tornado mais capacitados para fazer o diagnóstico. Ou por um "efeito manada", em que qualquer desvio de comportamento acaba sendo diagnosticado como TDAH.

De qualquer forma, estamos em um momento em que  aumentou nossa preocupação com a exposição da Laura a mídias eletrônicas. Achamos que a Laura tem ficado mais absorvida quando está assistindo algo ou brincando no iPad. Interrompê-la, às vezes, é motivo de conflito.

iPad: Concentrada...
Sabemos que hoje seu poder de concentração é maior. E que ela reclama também se estiver no meio de outra atividade, como desenhar, e tiver que parar.  Transições são momentos delicados e às vezes a gente esquece de que ainda é necessário prepará-la. Mas, isso não elimina a possibilidade de que seu comportamento seja algo específico da sua relação com as mídias eletrônicas.

Outro dia, discutindo como tratar o assunto, o Douglas até colocou que acha que a diferença entre interrompê-la quando ela está desenhando é diferente de quando ela está jogando ou assistindo algo, pelo fato de, na primeira atividade, ela ter mais controle sobre o que está fazendo e o baixo impacto da interrupção. No caso de um vídeo ou app, há a ansiedade de se perder alguma coisa ao ser interrompido "bem naquela hora", o que naturalmente vai provocar atraso em nos atender e/ ou protestos mais intensos.

Já andava meio cansada da insatisfação com as respostas que tinha obtido até o momento. Tudo com cara de medo e dificuldade de lidar com o que é novo e/ou pouco compreendido. E resolvi pesquisar, pensando que alguém deveria ter uma opinião ou evidências diferentes das fontes de informação a que tive acesso. Não é possível ter uma visão equilibrada, bem fundamentada de um assunto se você não ouve quem é pró e quem é contra. Já tinha visto bastante  o lado contra e fui procurar literatura que tivesse uma visão mais positiva do assunto. E encontrei o livro: Screen Time: How Electronic Media—From Baby Videos to Educational Software—Affects Your Young Child, da repórter Lisa Guernsey.

Hum... repórter? Não era melhor um especialista em desenvolvimento infantil e/ou do cérebro? Talvez. Mas fiquei bastante impressionada com a quantidade  e qualidade do material que ela usou para escrever o livro. Em toda parte há referência a artigos, eventos da área de que ela participou para fazer sua pesquisa, entrevistas com especialistas e pesquisadores renomados. E uma análise profunda de muitos mitos relacionados com o uso das mídias eletrônicas por criança. Pareceu-me um livro muito sério e bem embasado.

Além do que, identifiquei-me prontamente com sua motivação:  mãe de duas meninas, ela queria respostas diretas e conselhos realistas sobre os efeitos de mídia eletrônica sobre crianças.  Depois de profunda investigação, ela sugere que exposição à mídia tem que ser vista menos em termos da quantidade de exposição e mais em termos da qualidade do conteúdo, do contexto em que é usada e das necessidades individuais da criança. Isso sim, me pareceu sensato.  Para exemplificar, comento a seguir algumas coisas que o livro esclareceu para mim. Não pretendo apontar para as referências às pesquisas já documentadas no livro. Sugiro que leiam o livro para maiores detalhes. Aliás, recomendo fortemente.

Chamo a atenção também para o fato de que esta é a minha visão do livro. Certamente tendenciosa pelo fato de ter me identificado bastante com a autora.


1) A recomendação da AAP

 Associação Americana de Pediatria recomenda:
"...avoid television viewing for children under age of 2 years ...
... research on early brain development shows that babies and toddlers have a critical need for direct interactions with parents and other significant caregivers (e.g. child care providers) for healthy brain growth and the development of appropriate social, emotional and cognitive skills. Therefore exposing such young children to television programs should be discouraged."
("... deve-se evitar que crianças menores de 2 anos assistam televisão...
... pesquisas no desenvolvimento do cérebro mostram que bebês e crianças pequenas tem uma necessidade crítica de interação direta com pais e outros cuidadores importantes (e.g. nas creches) para um crescimento saudável do cérebro e desenvolvimento de habilidades sociais, emocionais e cognitivas adequadas. Portanto, tal exposição precoce de crianças à televisão deve ser desencorajada.")
A AAP fez esta recomendação com a melhor das intenções, certamente pensando no interesse das crianças. Mas, para minha surpresa, sua recomendação não foi devidamente fundamentada. Ela se baseou na pesquisa existente que demonstra o papel primordial que  atenção e interação desempenham para o desenvolvimento da criança. Perfeito. Mas não se baseou em pesquisas igualmente maduras que demonstrassem prejuízo da exposição precoce a mídias eletrônicas. Segundo fala de um dos membros do comitê de mídia da AAP, "... nenhuma pesquisa tinha apontado ainda qualquer vantagem em expor crianças menores de 2 anos a TV...".  E por isso resolveram ser tão radicais?

E, coisa que não se conta quando citam esta justificativa contra a exposição a mídias eletrônicas: esta recomendação foi bastante criticada no meio científico por sua falta de fundamentação e seu caráter excessivo.

Além do mais, desde quando expor a criança a este tipo de mídia a está privando automaticamente de interação com pais e cuidadores? Estão assumindo que a criança ficará exposta quanto? 100% do tempo? E quanto aos pais que tem participação ativa no uso da mídia com seus filhos: assistem, jogam e brincam junto com a criança, caso em que não podemos falar de uma exposição passiva e nem de falta de interação?

Além disso, se os pais são negligentes a ponto de deixar a criança sujeita a uma falta de interação prejudicial ao seu desenvolvimento, a disponibilidade de mídias eletrônicas é a culpada? Desligar a TV vai tornar estes pais menos negligentes? Vai de fato aumentar o tempo que as crianças estariam interagindo com estes pais? Pouco provável.

E será que todo o tempo de interação com os pais é positivo? Ou somos todos humanos e temos momentos ruins também?

Como diz a autora do livro, em mundo ideal em que os pais tivessem tempo ilimitado para ficar com crianças eternamente felizes e bem comportadas, ninguém sequer pensaria em usar um vídeo para bebês para conseguir um momento para respirar. Mas, no mundo real, os vídeos são usados para isso. A resposta é moderação.

2) TDAH

Em 2004, um estudo liderado pelo pediatra Dimitri A. Christakis, à época pesquisador  do Instituto de Saúde Infantil da Universidade de Washington, reportou que  crianças que tinham assistido muita TV quando pequenas estavam tendo problemas de atenção aos 7 anos. O estudo parecia fornecer a primeira evidência de que a exposição à TV poderia afetar negativamente o desenvolvimento do cérebro e recebeu bastante atenção da mídia. Seus autores sugeriram a seguinte ligação: quanto mais TV, maior o risco de problemas de atenção. E que diminuir exposição à TV reduziria o risco de TADH.

Mas, em poucos meses após a sua publicação no jornal Pediatrics, o estudo  foi criticado por cientistas especializados em TADH, pesquisadores em psicologia do desenvolvimento infantil, e mesmo especialistas em mídia e comunicação, que apontaram falhas significativas no estudo. Por exemplo, nenhuma criança do estudo havia sido diagnosticada clinicamente com TADH. As conclusões foram tiradas a partir da declaração dos pais das crianças de como elas se comportavam... Parece piada, algo tão grosseiro, numa pesquisa que se diz científica, né?

Pois é. Outros pesquisadores questionaram também por que alguém sem tradição no meio científico estava ganhando tanta atenção.  Bem, ele ocupava um cargo no governo...

O estudo não levou  também em consideração a possibilidade de relação inversa ao que seus autores propuseram. E, se, quanto mais extremos os problemas de comportamento, mais os pais tivessem recorrido ao uso de TV para tornar sua rotina com estas crianças mais suportável?

A conclusão é que, com os dados disponíveis no estudo e considerando suas diversas falhas, não era possível estabelecer a ligação defendida no artigo.


3) Autismo 

Esta também é engraçada. A correlação com o autismo surgiu de um estudo feito por economistas e sequer foi publicado em uma publicação científica.  O tal estudo avaliava algumas localidades com alta adesão a TV a cabo com incidência de autismo. Detalhe: ninguém sabe por que as localidades escolhidas para o estudo foram selecionadas. Só rindo.

Não sei se existem estudos mais sérios sobre o assunto. Mas pelo menos nenhum que a autora tivesse conhecimento à época da escrita do livro.

4) Zumbis

Não. Aquele olhar vazio das crianças quando estão ligadas na TV e não te ouvem, não significa que estão em um estado de supressão de processos mentais. Não estão vegetando.  Existe envolvimento cognitivo. Mas em que grau, varia com a idade.

Em experimentos em que as crianças eram expostas a um vídeo infantil sem alterações, a um vídeo com cenas embaralhadas e outro em uma língua que nunca tinham ouvido, verificou-se que crianças maiores  de 2 anos percebem as diferenças e reclamam que há "algo errado" com o vídeo embaralhado, por exemplo. Crianças menores não perceberam, mas não se pode inferir o que são capazes de distinguir.

Além disso, também se demonstrou que a atenção das crianças não é contínua. Elas desviam bastante da tela e quanto mais jovens, maior a frequência dos desvios.

5) TV como barulho de fundo faz mal

Particularmente para a fase que as crianças estão desenvolvendo a linguagem. Por quê?  A TV ligada em segundo plano interfere negativamente com as atividades em primeiro plano. Apesar de nem sempre percebido, pesquisas mostram que este barulho de fundo (que pode ser de outras fontes como rádio ou ar condicionado barulhento) atua como uma distração. Afeta a qualidade da interação dos pais com a criança. A qualidade da brincadeira em termos de o quanto a criança se envolve com o que está brincando. E, quanto mais alto o barulho, mais afeta a capacidade das crianças distinguirem e entenderem a fala de outras pessoas, fundamental para o desenvolvimento da linguagem.

6) Aprendizado e violência

O livro tem muito mais informação a oferecer. Por exemplo, discute ainda se as crianças conseguem aprender assistindo programas de TV ou vídeo.  O aprendizado em situação de exposição passiva é quase nulo. Quando a mídia pede a participação do espectador (estilo as perguntas que a Dora faz nos episódios de "Dora Aventureira" ou o Steve em "Pistas de Blue") a possibilidade de aprendizado aumenta. Quando há um adulto diretamente envolvido, participando do momento com a criança, ela aprende ainda mais.  E, claro: exposição ao conteúdo violento, assustador ou de outra forma incompatível com a idade da criança (estilo uma criança de 2 anos assistindo Bob Esponja...) tem impacto negativo. Seja no aprendizado, desenvolvimento da linguagem ou emocional.

7) Contras

Um problema do livro é que ele está desatualizado. Ele fala de mídias eletrônicas da década passada. Formas de interação como as oferecidas pelas apps em iPad e similares ainda não estava em voga. A autora comenta somente no epílogo do livro que a pesquisa sobre este tipo de interação ainda estava começando. O modelo de interação destes dispositivos é diferente porque é altamente responsivo: não tem nada no meio do caminho entre a ponta do dedo e a resposta esperada. A interação é bem mais intensa. Não é como computador que a pessoa tem que ter em mente mapeamento de mouse, tela, clique e resposta. Seria um modelo que favoreceria mais o aprendizado?  E quais os pontos negativos? Por ocasião da publicação do livro ainda não havia pesquisa capaz de responder.

Um comentário:

  1. Gostei muito do texto, pois também tenho a mesma preocupação. Até que ponto limitar as medias eletronicas. Cheguei a conclusão de que não devemos cortar, mas sim dosar. Tenho tentado adotar lá em casa o seguinte: video game no máximo duas horas por dia e só no fim de semana e por aí vai. Também trabalho com tecnologia e a limitação por exemplo do uso do ipad, realmente acaba sendo um pouco complicada.

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