terça-feira, 20 de outubro de 2015

Há 100 mil anos atrás

Em seu fantástico livro Kiss me! (Bésame mucho, no original em espanhol e na versão em português), o pediatra Carlos Gonzalez nos leva brilhantemente a refletir em que consiste, de fato, criar nossos filhos com amor. 

Esse livro me trouxe muitas ideias conhecidas pra quem aprecia o attachment parenting (criacao com apego). Mas examinadas de uma forma, - à luz da teoria da evolução e comparadas a varias teorias sobre como educar crianças - que aprofundou muito a minha visão sobre criação e trouxe novos insights.

Imagine-se há 100 mil anos atrás. Você e a sua cria. Sem teto ou roupa. Que características e comportamentos nos tornaram uma espécie bem sucedida? Nós, que nascemos extremamente vulneráveis, enxergando pouco e mal, e incapazes de nos locomover? Já imaginou, na natureza, como um filhote humano seria uma presa fácil?

Um filhote assim depende 100% da proteção dos adultos. Dos pais. Da mãe. Nasceu para que o contato constante com o corpo da mãe o mantivesse a salvo dos predadores, do sol, do vento, da fome e da solidão. Este contato constante é a sua sobrevivência. E, assim, o seu instinto pede que ele busque sempre estar com a mãe. E o instinto de sua mãe, que ela atenda sempre a essa necessidade de contato.

O que aconteceria, nesse cenário, se o bebê fosse deixado dormindo sozinho, no escuro da noite? Bem, se ele não acordasse e chorasse logo, corria o risco de virar presa. E se a mãe não atendesse ao choro rápido o suficiente, estaria condenada também. Mais ainda, bebês que tivessem uma predisposição genética de serem "bonzinhos", de não quererem estar sempre com a mãe, de não chorar no mínimo desconforto ou sensação de solidão, teriam menos chances de crescer e passar essa predisposição para seus descendentes.

Seria muito simplista dizer que estes comportamentos (despertar e choro do bebê, resposta tempestiva da mãe)  garantiram  o sucesso da nossa espécie. Mas certamente estão entre os que contribuíram para nossa evolução, afinal, todo filhote de primata chora.

Ei, espera aí!... Não é isso que fazemos com nossos bebês hoje em dia? Nós os colocamos em seus berços sozinhos para dormir! Mas hoje temos teto e roupas, certo? Esta situação não é mais uma ameaça... 

Verdade. A má notícia é que nossos genes não estão nem aí! A civilização e a cultura não exerceram nenhuma pressão evolutiva relevante sobre nossa espécie. Assim, a "programação" do bebê que nasce hoje é a mesma de 100 mil anos atrás. O instinto não mudou. Nem um centímetro.

E aí começa a encrenca. Nossa cultura, nosso estilo de vida atual, coloca sobre os bebês expectativas que nada tem a ver com ficar no colo da mãe o tempo todo ou dormir com ela. Ou acordar frequentemente. No nosso mundo ideal de hoje, o bebê deve dormir sozinho em seu quarto, a noite inteira. Assim, pais e bebê estarão descansados no dia seguinte, pra seguirem sua rotina moderna. Acordado, o bebê também fica "bonzinho" no carrinho ou no berço, para que a mãe consiga cuidar das coisas...

No mundo real, vivemos numa briga, entre as necessidades "ancestrais" dos nossos bebês e as necessidades da nossa vida atual. Ao resgate de pais exaustos e privados de sono, vêm best sellers, como "Nana Neném" (aquele que te ensina a deixar o seu filho chorando até "aprender" a dormir sozinho), e outros menos radicais, como a "encantadora de bebês", mas que tem uma coisa em comum: o principal objetivo é resolver o problema dos pais. Fazer o bebê se adequar ao que os pais consideram conveniente, com pouco ou nenhum respeito pelas necessidades do bebê.

Eu já estive do outro lado. Quando tive a Laurinha, tinha obsessão por fazê-la dormir no berço. Ela, obviamente, queria ficar no colo. Ainda mais sendo um bebê high need. Embora as necessidades da Laurinha tenham feito com que eu abandonasse os best sellers tipo "A encantadora de bebês" e buscasse algo que fizesse mais sentido pras necessidades dela, mantive a ideia do berço.

Não tinha consciência que minhas expectativas eram baseadas em preconceitos comuns em nossa cultura: a ideia de que colo mima ou de que, se o bebê não dormir no berço desde o início, tudo está perdido, não dormirá sozinho nunca mais. Também ainda não separava com clareza o joio do trigo, em se tratando de teorias sobre educação/criação de bebês e crianças.

O contato com o attachment parenting, que é fundamentado em respeitadas pesquisas científicas, começou a desconstruir estes mitos e refinar minha visão. Mas foi um processo gradual, um longo aprendizado (que nunca termina). Consegui aplicar muitas coisas na criação da Laura naquela época. Mas não tinha a maturidade que tenho hoje.

Cada vez que a Laura acordava, passava, às vezes horas, sentada na cadeira de balanço com ela no colo. Quando achava que seu sono era profundo o suficiente, colocava no berço. Às vezes ela acordava imediatamente. Às vezes demorava. Com o tempo ela passou a acordar menos. Mas só foi dormir a noite inteira (considerando aqui ao menos 5 horas ininterruptas por noite) com quase 3 anos!

Imaginem esta rotina, que no início eram várias vezes por noite: bebê chora, mãe acorda, pega no berço, amamenta e/ou nina, põe no berço de volta, volta pra cama, repetir... Receita para bebê irritado e pais exaustos.  Felizmente não me encantei pelos métodos que me prometiam a paz, se eu "adestrasse" o meu bebê. E a Laura atingiu sua maturidade do sono no tempo dela. Pelo menos como foi possível na época. Hoje acho que a história teria sido diferente se ela tivesse dormido em nossa cama. Mas, na época, não estávamos prontos pra isso.

Com a Isabella, conseguimos nos entregar ao attachment parenting completamente. Acordada ou dormindo, ela passa o dia no colo. E à noite dorme em nossa cama.  Tira tanto sonecas curtas quanto longas durante o dia. E eu aproveito alguns desses momentos pra dormir também.

Como está no colo, se acorda sonolenta, embalo novamente e ela continua dormindo. E muitas vezes procura o peito para mamar, sem sequer abrir o olho.  No berço, estes eventos  seriam interrupções da soneca; eu e ela descansaríamos muito menos.

Quando acordada, passeio com ela pela casa, brincamos, revezo com a babá ou o Douglas para comer, tomar banho...

À noite, Isabella também mama assim, nem abre o olho. São raras as noites que ela acorda e preciso levantar para niná-la. Temos uma rotina intensa, mas prazerosa. Com muito menos cansaço e choro do que esperava. 

Claro, temos que levar em conta que o temperamento da Isabella também contribui para este dia-à-dia mais tranquilo. Mas também não temos como avaliar até onde o attachment parenting proporciona esta relativa tranquilidade e até onde a tranquilidade vem da personalidade da Isabella. Provavelmente as duas coisas se complementam. 

Além disso, com mais experiencia, situações que foram difíceis são vistas com mais naturalidade e/ou como coisas temporárias. Por exemplo, nos últimos dias ela tem tido mais dificuldade para adormecer à noite. Fica agitada, chora e acabamos indo pra cama mais tarde. Mas simplesmente isso é parte do trabalho de pais. E vai passar...

Da minha cadeira de amamentar, graças ao meu smartphone, faço de tudo enquanto a Isabella está dormindo: supermercado, farmácia e outras compras; leio e-mail, livros e escrevo posts. Converso com família, amigos e até as babás pelo WhatsApp pra coordenar as tarefas de casa. Pago contas e mantenho um controle mínimo das finanças. Parece muito, mas são coisas que vou fazendo a conta gotas.  A prioridade é sempre a Isabella.

Berço? Muito raramente. Não sei quando faremos a transição da Isabella para o berço. E nem estamos preocupados. Pois sabemos que a dedicação intensa destes primeiros anos é o maior investimento que podemos fazer em seu desenvolvimento e bem-estar. É tendo suas necessidades atendidas que ela vai se tornar uma pessoa inteira, independente e segura. 

O raciocínio é simples: a cada necessidade atendida, aumenta sua segurança de que terá sempre cuidados. Que pode confiar nos pais. E, por extensão, isto afetará como se relacionará com as pessoas no futuro.

Cada necessidade atendida é superada e não fica ali, no caminho, atrapalhando o desenvolvimento do cérebro. Quando não tem que gastar energia sentindo sua sobrevivência ameaçada, o bebê tem tudo a disposição para crescer e desenvolver suas habilidades.

Criar filhos com amor? Pra mim está  sendo me entregar de corpo e alma ao que eles precisam realmente, com empatia e respeito. Incondicionalmente.

Eu e a Isabella
Voltando ao Carlos Gonzales: leiam o livro. Explorei apenas um aspecto do sono, mas o livro discute o que está por trás de muitos outros comportamentos de bebês e crianças. Muito interessante como o livro debate ideias e formas de criação consideradas aceitáveis em nossa  sociedade, que são de extremo desrespeito com as crianças. Leitura indispensável!

Se quiserem ver mais um pouquinho de suas ideias, vejam esta entrevista que ele deu à revista Crescer.




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